Agência Espacial Europeia estende missão CHEOPS até 2029

Imagem artística do CHEOPS, em órbita da Terra. (Crédito: ESA / ATG medialab)

A decisão da Agência Espacial Europeia (ESA) reconhece o desempenho excecional do satélite, assim como a maturidade da equipa liderada em Portugal pelo Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

A Agência Espacial Europeia (ESA1) estendeu a duração da missão CHEOPS (Characterizing Exoplanet Satellite) até ao final de 2029. Esta segunda extensão estabelece um marco significativo no estudo de exoplanetas, reafirmando o telescópio como uma peça central no arsenal da astronomia mundial. O Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA2) continua a desempenhar um papel crucial no desenvolvimento, manutenção e exploração científica da missão.

A desempenhar vários papéis de topo nesta fase da missão estão os investigadores do IA Sérgio Sousa, na liderança do grupo de trabalho “Caracterização de Alvos Estelares” (TS3) e Olivier Demangeon, que lidera o grupo “Atmosferas de exoplanetas (Axis 2). Já Susana Barros  gere um programa dedicado à deformação planetária e efeitos de maré.

Durante a nova extensão, o IA mantém a responsabilidade da manutenção da DRP (Data Reduction Pipeline), o software que traduz as imagens do satélite em curvas de luz de grande precisão. Para Sérgio Sousa (IA & Dep. de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (DFAFCUP)): “A aprovação desta fase reflete não apenas o excelente desempenho do satélite, mas também a maturidade científica da missão. Em particular, o pipeline de redução de dados tornou-se num elemento fundamental, que permite maximizar o retorno científico da missão, assegurando dados fotométricos de elevada qualidade para a comunidade.”

Contudo, a continuidade da missão traz novos desafios técnicos. Olivier Demangeon (IA & DFA-FCUP) ressalva: “Com o envelhecimento do telescópio, efeitos instrumentais subtis, que anteriormente eram negligenciáveis, podem tornar-se cada vez mais relevantes para a qualidade das observações. O pipeline deve, por isso, continuar a evoluir e a adaptar-se a estes novos desafios”.

O CHEOPS tem permitido observar fenómenos extremos, como a deformação de planetas. Susana Barros (IA & DFA-FCUP) sublinha que o impacto tem sido notável: “No caso do planeta WASP-103b, as observações do CHEOPS foram fundamentais para abrir caminho à primeira medição direta da deformação de um exoplaneta causada pelas marés da sua estrela, um resultado que motivou também observações posteriores com o JWST”.

A investigadora explica ainda que a extensão permitirá investigar o destino final destes mundos: “O CHEOPS é necessário para procurar sinais de decaimento orbital. A extensão permitirá testar melhor se alguns dos Júpiteres quentes mais extremos estão lentamente a espiralar em direção às suas estrelas”. Outro sucesso recente foi a descoberta de uma nova “desordem planetária” no sistema LHS 1903, onde a disposição de planetas rochosos e gasosos não segue a ordem habitual dos rochosos perto da estrela e os gasosos mais distantes, o que desafia as teorias vigentes de como os planetas são organizados dentro de um sistema.

No estudo das atmosferas, o CHEOPS atua agora em estreita colaboração com o telescópio espacial James Webb (JWST). Olivier Demangeon esclarece: “Ao observar planetas e estrelas na luz visível, o CHEOPS fornece informação complementar crucial para a interpretação dos dados obtidos pelo JWST no infravermelho”. Esta sinergia permite identificar os alvos mais interessantes para análises mais profundas, otimizando o tempo de ambas as missões.

O grupo de trabalho TS3, focado na caracterização detalhada das estrelas, continua a ser a base para a precisão dos resultados. Sérgio Sousa explica: “Conhecer as estrelas com precisão é fundamental para a determinação correta dos parâmetros planetários”. O IA tem assumido um papel de destaque ao transformar medições fotométricas de elevada precisão em conhecimento físico sólido sobre os sistemas planetários.

A extensão da missão demonstra o compromisso do IA em preparar o futuro da exploração espacial. Para Nuno Cardoso Santos, líder da equipa de Sistemas Planetários do IA e professor catedrático da FCUP, o telescópio é uma peça estratégica: “O CHEOPS tem sido essencial para a preparação da exploração científica da missão PLATO (ESA), com lançamento planeado para inícios de 2027. E agora, a equipa está já a explorar potenciais sinergias entre as duas missões”.

Até 2029, o CHEOPS servirá também como um laboratório no espaço para testar novas técnicas, como a procura de exoluas e o refinamento da estrutura interna dos exoplanetas.


Notas

  1. A Agência Espacial Europeia (ESA) é uma organização intergovernamental dedicada à exploração espacial. Com 22 Estados Membros, incluindo Portugal, a ESA promove a colaboração internacional em investigação e desenvolvimento espacial, avançando o conhecimento humano sobre o espaço e sobre a Terra. A ESA é ainda reconhecida pelas suas missões inovadoras, que ampliam os limites da ciência e tecnologia
  2. O Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) é a instituição de referência na área em Portugal, integrando investigadores da Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra e Universidade do Porto, e englobando a maioria da produção científica nacional na área. Foi avaliado como “Excelente” na última avaliação de unidades de investigação e desenvolvimento organizada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A atividade do IA é financiada por fundos nacionais e internacionais, incluindo pela FCT/MCES (UID/04434/2025.

Contactos
Sérgio Sousa; Susana Barros; Olivier Demangeon; Nuno Cardoso Santos

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Davi Barbosa; Ricardo Cardoso Reis; Filipe Pires (coordenação)