Coeditado pelo Centro de Astrofísica da Universidade do Porto e pelo Aarhus Space Centre, este livro reúne testemunhos e a história dos consórcios científicos KASC e TASC, protagonistas de alguns dos maiores avanços da asterossismologia moderna
Acaba de ser publicado o livro The Kepler and TESS Asteroseismic Consortia: a historical overview, uma obra que documenta a história, o impacto científico e a dimensão humana dos consórcios internacionais KASC (Kepler Asteroseismic Science Consortium) e TASC (TESS Asteroseismic Science Consortium), duas das mais influentes colaborações mundiais dedicadas à asterossismologia1.
A publicação resulta de uma parceria entre o Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP2) e o Aarhus Space Centre, da Dinamarca e tem como editores o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA3) Tiago Campante, há muito ligado às atividades científicas dos dois consórcios, e Mikkel Nørup Lund (Universidade de Aarhus).
Ao longo das últimas duas décadas, os consórcios KASC e TASC têm vindo a desempenhar um papel central na exploração científica dos dados recolhidos pelas missões espaciais Kepler e TESS, da NASA. Através destas colaborações internacionais, milhares de estrelas foram caracterizadas com um detalhe sem precedentes, permitindo avanços significativos no conhecimento da estrutura, evolução e dinâmica estelares.
Para o investigador do IA e professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), Tiago Campante, a obra procura preservar não apenas uma história científica de sucesso, mas também a cultura de colaboração que esteve na sua origem: “Este livro nasceu da vontade de preservar a memória coletiva de uma comunidade que transformou a forma como estudamos as estrelas. Mais do que contar a história de dois consórcios científicos, quisemos dar voz às pessoas, às relações de confiança e ao espírito de colaboração que tornaram essa história possível.”
A publicação reúne contributos de investigadores de diferentes gerações e nacionalidades, incluindo relatos pessoais, testemunhos históricos e reflexões sobre a evolução da asterossismologia desde os primeiros resultados obtidos com a missão Kepler até aos desafios científicos atuais e futuros.
Segundo Campante: “Os consórcios KASC e TASC ajudaram a converter as missões Kepler e TESS em verdadeiros laboratórios para a física estelar, reunindo investigadores de todo o mundo e de várias gerações. Este livro celebra esse legado, mas procura também mostrar como o modelo de colaboração criado por estes consórcios continuará a influenciar a asterossismologia nas próximas décadas.”
O investigador destaca ainda o papel crescente da comunidade portuguesa nesta área científica: “É particularmente significativo que uma obra dedicada a uma colaboração verdadeiramente internacional seja coeditada a partir do Porto. A comunidade portuguesa, liderada pelo IA/CAUP, tem tido uma participação crescente na asterossismologia espacial, e esta publicação reflete também o lugar que Portugal conquistou nessa rede científica internacional.”
A importância desta publicação é igualmente sublinhada por Mário João Monteiro, investigador do IA, e atual diretor do CAUP: “Este livro reflete também o longo percurso que Portugal fez na área de Asterossismologia e Evolução Estelar, em que se enquadra a participação significativa e efetiva de Portugal no KASC e no TASC. Essa longa história de Portugal iniciou-se com a definição de um contributo nacional para a proposta da missão Eddington à ESA (por volta de 1995, mas que não chegou a ser construída), a integração através da ESA da missão CoRoT (lançada em 2006 pela França), e finalmente a participação efetiva no KASC (missão Kepler da NASA, lançada em 2009) e mais tarde no TASC (missão TESS da NASA, lançada em 2018)”.
Monteiro, que também é professor do Departamento de Física e Astronomia da FCUP (DFA-FCUP), acrescenta: “A internacionalização e colaboração com os melhores grupos a nível internacional marcou esse longo percurso e permitiu afirmar o CAUP como uma instituição que é hoje reconhecida pelos parceiros internacionais líderes no uso da asterossismologia para o estudo das estrelas. Essa história não terminou ainda, pois Portugal está fortemente envolvido na preparação da missão PLATO da ESA (para ser lançada em 2027) e nas missões que se seguirão.”

Também Margarida Cunha, investigadora do IA e membro da direção do CAUP, destaca a relevância dos modelos colaborativos para o progresso científico: “Os avanços da ciência fazem-se de competição e colaboração. Estes dois conceitos não são antagónicos; complementam-se. Os consórcios KASC e TASC são um exemplo desse equilíbrio, juntando a procura pela excelência com o espírito de cooperação. O seu sucesso deve-se, em grande parte, aos seus mentores – pessoas com visão, mas também com um forte sentido de comunidade, que cuidam dos investigadores mais jovens, apoiando o seu desenvolvimento e preparando a próxima geração de cientistas.”
Além de um registo histórico, este livro constitui também uma reflexão sobre a forma como a ciência moderna é construída através de redes globais de cooperação. Num período em que a comunidade internacional se prepara para novas missões espaciais, como a PLATO (PLAnetary Transits and Oscillations of stars, ou Trânsitos Planetários e Oscilações nas Estrelas), da Agência Espacial Europeia (ESA), o livro documenta o legado deixado pelos consórcios KASC e TASC e o papel determinante que tiveram na consolidação da asterossismologia como uma das ferramentas mais poderosas para desvendar o interior das estrelas.
A publicação encontra-se disponível em acesso aberto através do Zenodo, em: https://doi.org/10.5281/zenodo.20610469
Notas
- A asterossismologia é o estudo do interior das estrelas através da sua atividade sísmica medida à superfície. Em sismologia, os diferentes modos de vibração de um tremor de Terra podem ser usados para estudar o interior da Terra, ao fornecerem dados acerca da composição e profundidade das diversas camadas. De forma semelhante, as oscilações observadas à superfície de uma estrela podem ser usadas para inferir dados sobre a sua estrutura interna, composição e idade, de forma semelhante a uma ecografia
- O Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP) foi criado em maio de 1989 (Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia) e iniciou as atividades em outubro de 1990. É uma associação científica e técnica privada, sem fins lucrativos e reconhecida de utilidade pública. Os seus objetivos são apoiar e promover a Astronomia através da investigação científica, a formação ao nível pós-graduado e universitário, o ensino da Astronomia ao nível não universitário (básico e secundário) e a divulgação da ciência e promoção da cultura científica. É a instituição de acolhimento do polo da Universidade do Porto do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.
- O Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) é a instituição de referência na área em Portugal, integrando investigadores da Universidade de Lisboa, Universidade de Coimbra e Universidade do Porto, e englobando a maioria da produção científica nacional na área. Foi avaliado como “Excelente” na última avaliação de unidades de investigação e desenvolvimento organizada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A atividade do IA é financiada por fundos nacionais e internacionais, incluindo pela FCT/MCES (UID/04434/2025
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Ricardo Cardoso Reis; Filipe Pires (coordenação)

