As peças fundamentais para uma cidadania astronomicamente informada

Documento “Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy”

O primeiro documento global que propõe uma definição de Literacia em Astronomia é hoje publicado em acesso aberto, com a coautoria do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA).

Ao longo da história, a Astronomia tem revolucionado a forma como a humanidade vê o seu lugar no Universo, desde conhecermos apenas uma mão cheia de planetas no Sistema Solar, até aos milhares de milhões de galáxias hoje conhecidas. Mas até que ponto tem este conhecimento sido integrado na sociedade?

O primeiro documento global de Literacia em Astronomia, “Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy1 é anunciado hoje pela União Astronómica Internacional (IAU2). É um projeto liderado por João Retrê, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA3) e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), e pelo colaborador do IA, Pedro Russo, da Universidade de Leiden, nos Países Baixos.

Capa do documento “Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy”
Capa do documento “Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy”

Este documento lança a pergunta: “O que deverão os cidadãos, em qualquer lugar do mundo, saber sobre astronomia?”. Apresenta onze “grandes ideias”, como “Somos feitos de poeira de estrelas”, ou “Poderemos não estar sozinhos no Universo”, cada uma suportada por sete a dez conceitos fundamentais. As suas 65 páginas cobrem um amplo leque de aspetos da astronomia, da história à tecnologia, da teoria às observações, assim como as implicações sociais e filosóficas, todos ancorados em tópicos que vão da Terra aos confins do Cosmos.

“ʻBig Ideas in Astronomyʼ pretende ser tanto informativo como inspirador, mostrando a importância da astronomia para a sociedade em que vivemos”, diz João Retrê. “Foi concebido para ter um leque de aplicações, como ajudar no desenvolvimento de novos recursos para o ensino em astronomia, influenciar os currículos escolares, e fornecer um enquadramento para recomendações de políticas governamentais.”

Este é um documento que traça um trajeto para os objetivos de Literacia em Astronomia. Pretende-se que seja usado pelas comunidades de educadores e divulgadores em astronomia, mas também que evolua com os seus contributos. Por esta razão, o documento é publicado com a licença Creative Commons, que permite que qualquer pessoa o partilhe e adapte, desde que seja dado o respetivo crédito. Os ficheiros editáveis (Documento Google e Adobe InDesign) e não editáveis (PDF) estão disponíveis online.

“ʻBig Ideas in Astronomyʼ pretende ser tanto informativo como inspirador, mostrando a importância da astronomia para a sociedade em que vivemos”, diz João Retrê.

“Foi concebido para ter um leque de aplicações, como ajudar no desenvolvimento de novos recursos para o ensino em astronomia, influenciar os currículos escolares, e fornecer um enquadramento para recomendações de políticas governamentais.”

“Este documento indispensável fornece alguns dos blocos fundamentais para a educação em astronomia”, diz Pedro Russo. “Professores, educadores, criadores de currículos de ensino, e até editores de livros escolares podem usar estes objetivos de literacia para desenvolver conteúdos e recursos de astronomia novos e atualizados.”

A União Astronómica Internacional definiu, como parte da sua estratégia, promover a utilização da astronomia no ensino e na educação ao nível escolar. “Big Ideas in Astronomy” contribui para este objetivo, expandindo o trabalho de projetos noutras áreas científicas, como nas Ciências da Terra, ou o projeto “Big Ideas in Science”.

O Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA)
A Astronomia estimula e beneficia do desenvolvimento tecnológico, uma das “grandes ideias” neste documento hoje publicado.
Na imagem, o maior radiotelescópio do mundo, o ALMA.
Créditos: ESO/C. Malin

“Este trabalho é um passo para trazer a astronomia para mais perto dos cidadãos e cidadãs, e para criar um futuro transformado por esta mudança”, sublinha João Retrê. Pedro Russo acrescenta: “Isto é apenas o início. À medida que a astronomia evolui, este documento tem também de evoluir e de manter a astronomia e a ciência relevante para a sociedade.”

Este projeto é liderado pelo Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (Portugal), o Observatório de Leiden, Universidade de Leiden (Países Baixos), com inúmeros colaboradores e contribuidores à volta do mundo. Foi produzido no âmbito da Comissão C1 da IAU para o Ensino e Desenvolvimento em Astronomia, em particular, o Grupo de Trabalho em Literacia e Desenvolvimento Curricular.


Notas

  1. Big Ideas in Astronomy: A Proposed Definition of Astronomy Literacy” está disponível online em:
    https://www.iau.org/static/archives/announcements/pdf/ann19029a.pdf
    Os autores deste trabalho são: João Retrê (Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Portugal), Pedro Russo (Universidade de Leiden, Países Baixos), Hyunju Lee (Smithsonian Science Education Center, EUA), Eduardo Penteado (Museu de Astronomia e Ciências Afins, Brasil), Saeed Salimpour (Deakin University, Austrália), Michael Fitzgerald (Edith Cowan University, Austrália), Jaya Ramchandani (The Story Of Foundation, Índia), Markus Pössel (Haus der Astronomie, Alemanha), Cecilia Scorza ( Ludwig Maximilians University of Munich & Haus der Astronomie, Alemanha), Lars Lindberg Christensen (Observatório Europeu do Sul), Erik Arends (Universidade de Leiden, Países Baixos), Stephen Pompea (NOAO, EUA) and Wouter Schrier (Universidade de Leiden, Países Baixos). 
  2. A IAU é a organização astronómica internacional que reúne mais de 13 500 astrónomos profissionais de mais de 100 países em todo o mundo. A sua missão é promover e proteger a astronomia em todos os seus aspetos, incluindo a investigação, comunicação, educação e desenvolvimento, através da cooperação internacional. Fundada em 1919, a IAU é o maior organismo profissional de astrónomos no mundo. 
  3. O Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) é a instituição de referência na área em Portugal, integrando investigadores da Universidade de Lisboa e da Universidade do Porto, e englobando a maioria da produção científica nacional na área. Foi avaliado como “Excelente” na última avaliação que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) encomendou à European Science Foundation (ESF). A atividade do IA é financiada por fundos nacionais e internacionais, incluindo pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (UID/FIS/04434/2019).