Há 20 anos, em Agosto de 2006, Plutão era reclassificado e passava a ser conhecido como Planeta Anão, mas ainda hoje se discute a “despromoção”. Afinal, porque é que Plutão deixou de ser o 9º planeta do Sistema Solar?
Artigo de Ricardo Cardoso Reis1.
Descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh, Plutão era o único objeto conhecido para lá de Neptuno. Naquela altura só deu para perceber que este objeto não era um gigante gasoso, e assumiu-se (de forma errada) que teria um tamanho semelhante ao da Terra, sendo por isso classificado como planeta.
No entanto, hoje sabemos que Plutão tem cerca de 2/3 do diâmetro e 1/6 da massa da nossa Lua. Na realidade, há 7 luas no Sistema Solar que são maiores do que este objeto da cintura de Kuiper (além da nossa, as 4 luas galileanas de Júpiter, a maior Lua de Saturno e a maior lua de Neptuno).
Mas apenaso tamanho não é justificação para uma despromoção – Quer Titã, a maior lua de Saturno, quer Ganimedes, a maior lua de Júpiter, são maiores do que o Planeta Mercúrio, embora tenham menor massa, e ninguém considera chamar-lhes “planeta”.
Então é a massa de Plutão que justifica esta despromoção? Mais ou menos… Mas não nos vamos adiantar.
Não é só a massa que o torna Plutão o “estranho” no meios dos planetas, é preciso ainda considerar a sua órbita.

Enquanto os 8 planetas orbitam todos mais ou menos no mesmo plano (designado por Eclíptica), com órbitas (praticamente) circulares, a órbita de plutão tem uma inclinação de cerca de 17 graus em relação à Eclíptica e também é bastante elíptica, com a distância ao Sol a variar mais de 66% ao longo da sua órbita (entre 30 e 50 unidades astronómicas, ou entre 4,5 e 7,5 mil milhões de km). Isto faz com que durante 20, dos quase 248 anos da sua órbita, Plutão esteja mais próximo do Sol do que Neptuno!
Como sabemos que é confuso, um pequeno esclarecimento: Não confundam “ECLÍptica”, que é o plano do Sistema Solar, com “ELÍptica”. Uma elipse é uma espécie de “círculo achatado”, cuja excentricidade determina o quanto a elipse difere de um círculo. A excentricidade varia entre zero (um círculo perfeito) e 1. Para excentricidades maiores ou iguais a 1, a órbita para a ser aberta, com a forma de uma parábola ou hipérbole.
Mas voltando a Plutão.

Em 1978, James Christy descobriu que Plutão tinha uma lua, que recebeu o nome Caronte. Até aqui nada de novo – os planetas podem ter satélites naturais. Mas Caronte é diferente dos outros satélites naturais, pois tem cerca de metade do diâmetro de Plutão e 1/8 da massa. Mesmo a nossa Lua, cujo diâmetro proporcionalmente ao seu planeta é dos maiores do Sistema Solar, tem cerca de 1/4 do diâmetro e cerca de 1% da massa da Terra.
Apesar destas características que claramente o distinguiam dos outros 8, Plutão foi sendo considerado planeta até ao fim do séc. XX. Até que, em 1992, para lá da órbita de Neptuno, a cerca de 44 unidades astronómicas do Sol, foi descoberto o objeto hoje designado por 15760 Albion. E em 1993 foram descobertos mais 5… e em 1994 mais 18, chegando aos 100 objetos da agora designada cintura de Kuiper em novembro de 1996. Entre 1996 e 2003, altura da descoberta do atual planeta anão Haumea, foram detetados milhares destes objetos transneptunianos.
Finalmente chegamos a 2005, ano da descoberta de Éris, que originalmente se pensava ser ligeiramente maior do que Plutão.
Isto levou à discussão na comunidade científica: Se Plutão é planeta, algo maior não devia ser também um planeta? Mas já nessa altura já eram conhecidos mais 3 destes objetos transneptunianos, cujo diâmetro é pelo menos maior do que Caronte. Então estes não deveriam também ser considerados planetas? Isto implicaria aumentar o número de planetas do Sistema Solar em cerca de 50%! Não faria mais sentido criar uma nova categoria para estes objetos, incluindo Plutão?
Na verdade, esta discussão não era nova – em 1801, quando Giuseppe Piazzi descobriu Ceres, este era o único objeto conhecido entre Marte e Júpiter, sendo por isso classificado como “planeta”. Entre 1850 e 1860, conforme se foram detetando cada vez mais objetos praticamente na mesma órbita que Ceres, tornou-se necessário criar uma nova categoria para o “aglomerado” de objetos entre Marte e Júpiter – o que hoje designamos por Cintura de Asteróides, o que levou à reclassificação de Ceres como Asteróide.
Em agosto de 2006, na Assembleia Geral da União Astronómica Internacional (IUA), foram propostas definições claras para planeta, e para esta nova categoria que acabou por ser designada “Planetas Anões”.
Assim, segundo a definição, um Planeta é um objeto do Sistema Solar que:
– Orbita diretamente o Sol (ou seja, satélites naturais, independentemente do diâmetro, não podem ser planetas);
– Está em equilíbrio hidrostático (grosso modo, é arredondado);
– É suficientemente massivo para ter limpado a sua órbita … e é neste ponto que Plutão falha.
Para perceber melhor esta última característica, tentem visualizar o seguinte: Se tivéssemos uma balança grande o suficiente para pesar planetas, colocando num dos pratos o candidato a planeta, e no outro prato todos os objetos que partilham mais ou menos a mesma órbita, a balança iria claramente cair para o lado do planeta.
Isto verifica-se com os 8 planetas, de Mercúrio a Neptuno. Por exemplo, no caso de Saturno, que atualmente tem centenas de satélites naturais conhecidos, a massa combinada das luas não chega sequer a 0,03% da massa do planeta. Mesmo no caso da Terra, a nossa Lua anormalmente grande representa pouco mais de 1% da massa do nosso planeta – claramente, a Terra é o objeto dominante na sua órbita.
Ora, se considerarmos Plutão e a sua órbita, só Éris sozinho tem logo 25% mais massa. Mas se considerarmos TODOS os objetos conhecidos da Cintura de Kuiper, a massa combinada é 9 vezes superior à massa de Plutão (ou de Éris)! Isto é, na órbita da Cintura de Kuiper não há um objeto que seja claramente dominante.
Com isto, a IAU decidiu criar uma nova categoria de objetos, que cumpriam apenas as duas primeiras características de planeta: Orbitar diretamente o Sol e ser arredondado.
A definição foi relativamente pacífica, com quase 60% dos presentes a votar a favor, mas o nome a dar a esta nova categoria, já foi mais complicado… Entre as propostas estavam, por exemplo, plutões, planetas secundários ou planetóides. O problema é que todos estes já eram, de uma forma ou de outra, usados (ainda que alguns de forma informal). Em geologia, por exemplo, “corpo plutoniano” (em português também se usa “plutonito”) já é usado para designar uma grande massa de rocha magmática que se solidificou lentamente nas profundezas da crosta terrestre.
Para resolver o impasse que se gerou em relação ao nome, acabou por se chegar a uma solução de compromisso, que não desagradava à maioria: “Planetas Anões”. E foi assim que Plutão acabou por ser reclassificado como o maior planeta anão.
Curiosamente, a mesma definição que levou à reclassificação de Plutão (orbitar diretamente o Sol e ser redondo) acabou também por incluir Ceres, o que faz com que este tenha agora o estatuto dual de planeta anão e asteróide.
Há assim 5 planetas anões reconhecidos pela IAU: Plutão, Éris, Ceres, Haumea e Makemake (lê-se “má qué má qué”).
Haumea é um bom exemplo de porquê usar “em equilíbrio hidrostático”, em vez de simplesmente “ser redondo” – é que este planeta anão tem uma forma semelhante à de uma bola de rugby!
Notas
- Ricardo Cardoso Reis é licenciado em Astronomia e mestre em Ensino e Divulgação da Ciência. É membro do Grupo de Comunicação de Ciência do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e Técnico de Divulgação no Planetário do Porto – Centro Ciência Viva.


