Três regiões do céu eleitas para mergulhar no Universo profundo

Imagem obtida com o Telescópio Espacial Hubble do enxame de galáxias Abell S1063

Imagem obtida com o Telescópio Espacial Hubble do enxame de galáxias Abell S1063, em que é possível observar o efeito de ampliação (e deformação) de imagens de galáxias (os segmentos de arco aproximadamente concêntricos) que é devido à massa do enxame, composta por matéria “normal” e por matéria escura. . Créditos: NASA, ESA, and M. Montes.

Investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) participaram na escolha e validação de três regiões escuras do céu para as observações profundas do Euclid1, a missão da Agência Espacial Europeia (ESA) que irá penetrar no lado escuro do Universo. As regiões, uma no hemisfério celeste norte e duas no hemisfério celeste sul, foram anunciadas no encontro anual do Consórcio Euclid2, em Helsínquia, Finlândia, e divulgadas pela ESA.

A missão Euclid, com lançamento previsto para 2022, irá permitir o estudo da forma e da posição tridimensional de milhões de galáxias. Deste modo, os investigadores esperam mapear a distribuição espacial da matéria escura3, e também lançar luz sobre o passado, presente e futuro da misteriosa energia escura4 que, inexplicavelmente, impele a expansão acelerada do Universo.

O Euclid irá observar mais de um terço do céu, mas 10% do tempo de observação será utilizado para analisar a fundo três regiões especiais, cuja localização e forma de observar foram agora anunciadas. Em conjunto, equivalem a 200 vezes a área da Lua cheia e situam-se perto dos polos da eclíptica5, por serem zonas que o Euclid poderá observar durante praticamente todo o ano sem a interferência do Sol. Cada uma destas regiões será visitada, no mínimo, 40 vezes, esperando-se encontrar objetos extremamente ténues escondidos nessas janelas escuras do passado cósmico.

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Notas:

  1. A missão Euclid, cujo nome é uma homenagem ao matemático grego Euclides, considerado o pai da geometria, tem por objetivo compreender por que razão o Universo se está a expandir de forma acelerada. O telescópio espacial Euclid terá 1,2 metros de diâmetro e dois instrumentos: uma câmara na luz visível, e outra câmara/espectrómetro no infravermelho próximo.
  2. O Consórcio Euclid agrega cerca de 1500 cientistas de 14 países europeus, Estados Unidos e Canadá. Portugal recebeu em maio de 2016 o sexto encontro anual do consórcio, divulgado pelo IA.
  3. A matéria escura é um tipo de matéria que não emite nem absorve radiação em qualquer parte do espetro eletromagnético. Apesar de, por isso, não poder ser detetada diretamente por telescópios, a sua gravidade provoca efeitos detetáveis na matéria visível. A Matéria escura deverá constituir cerca de 23% de tudo o que compõe o Universo, enquanto a matéria “normal” corresponde a apenas 4%.
  4. A energia escura é uma misteriosa força que se opõe à atração gravitacional, e que provoca a expansão acelerada do Universo. A energia escura corresponderá a 73% de tudo o que compõe o Universo. A descoberta desta aceleração cósmica, em 1998, foi premiada em 2011 com o Prémio Nobel da Física.
  5. A eclíptica é a projeção na esfera celeste do plano da órbita da Terra, e é por isso também a linha imaginária que o movimento anual aparente do Sol desenha na esfera celeste. Os polos da eclíptica são os dois pontos onde qualquer linha imaginária perpendicular ao plano da órbita da Terra cruza a esfera celeste, a norte e a sul. São portanto os dois pontos no céu mais afastados do Sol em qualquer momento do ano. Os três campos profundos do Euclid encontram-se respetivamente na constelação do Dragão, no hemisfério celeste norte, e nas constelações do Relógio e da Fornalha, no hemisfério celeste sul.